segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Questão de escolha! Espernear ou arriscar?

Tudo a cada segundo depende de minha decisão.

Não é maravilhoso isso?

Que poder, hein?!

Dotada de razão e sensibilidade, posso construir conhecimento e iluminar minha vontade para melhor escolher, para escolher o que é bom, para mim e para os outros.

Sim, as coisas devem ser boas para todos, mesmo que a alguns não pareça bom ainda naquele momento, mesmo que alguns não consigam perceber o bem ainda.

Às vezes as decisões de uns não são mesmo boas para todos à princípio, mas aí, há ainda uma segunda chance de tudo dar certo, de tudo ser bom para todos. Qual é a chance?

É simples! Se para alguém a decisão do outro provocou um efeito aparentemente ou aprioristicamente negativo, esse alguém pode pegar o negativo e transformar em positivo, pois, nada é totalmente e/ou exclusivamente mau ou bom, então, pela lógica, posso do mau retirar algo de bom. Este é o segredo, o milagre, a dádiva que poucos enxergam ou poucos querem enxergar, afinal, dá trabalho transformar! rs Parece melhor esperar que alguém me dê o que acho que preciso, o que acho justo pra mim, o que quero caprichosamente!

Mordaz isto? Sim! E vou carregar mais ainda na impressão...é cáustico, ácido, áspero mesmo. Mas verdadeiro! Vivido na carne, na mente e no espírito! Garanto! (E pra quem gosta de categorias, de análise científica...Esta declaração é puro empirismo. Com pitadas de racionalismo, existencialismo e até misticismo.)

Há pouco mais de 10 anos alguém tomou uma decisão que me afetava diretamente. Levei muitos anos para perceber o bem que isso me traria. Por 2 anos fiquei na atitude pueril, vitimizada, engessada, "birrenta" como uma criança mal educada que esperneia dizendo "não vou, não quero, não faço", como se isso fosse comover alguém...rs. E como era de se esperar, nada consegui...rs. Foi aí que decidi me mover. Terapias, remédios, orações e uma boa dose de falta de medo...rs...ou uma boa dose de vontade de sentir a adrenalina nas veias, coisa que o risco provoca...rs. Parece lindo, mas vamos nomear esse quase Hino à coragem...rs...essa capacidade de correr riscos em mim chama-se transtorno bipolar no dna...rs...ainda bem que em mim os riscos precisam ser razoavelmente calculados...rs.

Então arrisquei conviver de novo, formar par, mas fomos apenas dois e não par. Sabe dança em baile de formatura da década de 90 e deste início de segundo milênio? Vou explicar melhor. Na década de 70 e 80, ainda dançava-se em par, um tinha que pegar na mão do outro pra dançar, era preciso o homem segurar e conduzir a mulher, era preciso a mulher se deixar conduzir e fazer-se leve, era preciso se tornar um par para coreografar no salão. Depois disso, a dança passou a ser individual, mesmo quando um está em frente ao outro, dançam, mas não se precisam pra coreografar, cada um dança como quer sem sofrer a ação da dança do outro quase. Isto é ser dois e não par. Dois é legal, mas par é maravilhoso, muito mais gracioso, gera muito mais possibilidades. E todo mundo quer mais possibilidades, variação, riqueza de detalhes e de movimentos, por isso o sucesso do quadro "Dança dos famosos" no programa do Faustão.

Cansada de viver a dois, achei melhor viver a uma...rs...mas logo lembrei que é pobre isso, e como tenho manias de grandeza, como sou às vezes megalomaníaca, como nunca me contentei com pouco, voltei às raízes e, bem, sonhei de novo com a possibilidade de formar um par.

Fui à luta. Desejei muito, com ardor, s e n t i como real a presença de um par. Imaginei cenas, v i s u a l i z e i minha felicidade estampada no rosto que ria solto e no corpo que rodava de braços abertos no ar, à minha volta uma luz de sol de verão. S e n t i aromas de temperos e perfumes de flores. V i s u a l i z e i um par. Arrisquei conversar. Arrisquei olhar. Arrisquei me aproximar. Arrisquei tocar. Arrisquei ouvir. Arrisquei falar. Arrisquei silenciar. Arrisquei apenas estar com. Arrisquei o pior, o mais difícil, o menos racional, o mais humano, o mais condenável pelos objetivos, o mais raro, o menos provável em tempos de alta modernidade, porque arrisquei c o n f i a r.

Confiando, estou tentando formar par. Não é fácil. Mas é possível, porque é uma questão de escolha livre, e livre porque é iluminada pela razão, que aponta as vantagens do par. Se o outro vai formar o par, ainda é cedo pra saber, mas as músicas que dançamos no baile dos primeiros dias já deu pra ter uma idéia de que temos muitas possibilidades de fazer não só o corpo dançar, mas também a alma, temos sincronismo, leveza, ritmo, criatividade, firmeza suficiente para certos movimentos e principalmente g o s t o pela inovação, pelo improviso, pela evolução, pela beleza, pelos detalhes, pela inteireza do par.

Para quem entende de humanidades, para quem entende de gêneros, para quem entende de vida vivida além do sofá ou dos livros, sabe que encontrei alguém que vale a pena sonhar de novo.

Bom isso, não? rs

Você também pode. Não fica esperneando não...rs...a vida passa.

terça-feira, 27 de julho de 2010

A mente humana é sempre um perigo

Os gatilhos estão por aí no dia-a-dia...qualquer fato ou sequência de fatos podem ser compreendidos de forma distorcida, errada, exagerada ou minimizada em nossa mente.
CUIDADO!
Ninguém está livre da mente acionar gatilhos de desequilíbrio.
Estejamos atentos.
Convém respirar ritimadamente para desacelerar a mente ansiosa - que dessa forma cria imagens fantasiosas.
Convém buscar idéias positivas para substituir as negativas que são mais costumeiras.
Convém exercitar o giro de 360 graus com o pensamento, ver todas as possibilidades.
Convém ouvir os outros.
Convém tratar-se às vezes.
Convém afastar-se das pessoas antes de ser injusto.
Convém perceber seu erro de compreensão dos fatos.
Convém pedir perdão aos acusados indevidamente.
Convém tentar consertar o que é possível.
Convém evitar errar de novo.
Convém ainda dar uma chance a si mesmo, ao outro, à leitura dos fatos.
Convém ter esperança.
Convém se desarmar.
Convém arriscar construir o novo.
Mas nunca se sabe se convém ao outro participar desse caminho, dessa escola enquanto a gente erra.
Mesmo assim...
...preciso muito do seu perdão!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Atividade Volitiva

Toda atividade humana é originada ou tem por princípio um instinto (natureza inconsciente) ou a vontade (natureza reflexiva, livre e tendente ao bem).

1. NATUREZA DA VONTADE

1.1 A vontade é de natureza reflexiva: isto se diz porque conhece o fim a que tende, os meios de atingi-lo e as conseqüências desse fim.
1.2 A vontade é de natureza livre: isto se diz porque pode escolher entre os diferentes bens que a razão lhe propõe.
1.3 A vontade é tendente ao bem: isto porque só persegue o bem, o aspecto de bem que as coisas lhe apresentam.

2. ANÁLISE DO ATO VOLUNTÁRIO/LIVRE

O ato voluntário compreende 3 (três) fases:

2.1 Deliberação: momento em que se considera as alternativas, as razões pró e contra de cada uma delas. A vontade nesta fase, intervém, substituindo a atenção espontânea pela atenção refletida.
2.2 Decisão: momento em que se diz “eu quero”, em que se faz a escolha de um dos termos, de uma das alternativas e assim, encerra a deliberação. A vontade nesta fase é um ato positivo e refletido.
2.3 Execução: momento que se segue à escolha, em que se realiza a escolha. A vontade nesta fase põe em movimento as faculdades executivas, garante sua manutenção renovando a decisão inicial e repudiando as tendências instintivas que na deliberação se apresentaram e tentaram afastar a reflexão, a liberdade e a tendência ao bem.

3. ABULIAS/DOENÇAS DA VONTADE

3.1 Da Deliberação

3.1.1 Impulsividade: é o caso daqueles que são forçados a agir desta ou daquela forma pelo impulso, não conseguem refletir, portanto não são livres para querer.
3.1.2 Infinita deliberação/análise: é o caso dos que refletem demais, indefinidamente, levantam sem cessar os mesmos problemas, não conseguem resolver-se ou concluir a discussão.

3.2 Da Vontade

3.2.1 Veleidade/hesitação em decidir pelo que sabe que é melhor: é o caso dos que conseguem deliberar, saber o que é melhor, o que devem fazer, mas não conseguem querer fazê-lo. Ex. Sei que fumar faz mal, mas não decido parar.

3.3 Da Execução

3.3.1 Volubilidade/inconstância/fraqueza de manter a decisão/de realizá-la/de não abandoná-la: é o caso daqueles que escolhem, mas logo desistem, cedem às primeiras dificuldades, e até provocam essas dificuldades que assim os dispensará de ir até o fim de seu desejo.
3.3.2 A realização de uma escolha determinada apenas por uma obsessão quando deveria ser livre: é o caso daqueles que sofrem a ação de uma idéia fixa. A vontade neles está ausente, uma vez que a vontade consiste em ser senhor de sua escolha e não comandado por uma idéia repetitiva e constante.
3.3.3 A obstinação que, longe de significar força de vontade, é antes fruto de instintos de afirmação de si ou de contradição de outrem.

4. VONTADE LIVRE

É aquela escolha que substitui a obediência passiva às ordens dadas pela obediência às razões compreendidas.

5. EDUCAÇÀO DA VONTADE

5.1 Indireta: o que aperfeiçoa uma atividade humana repercute forçosamente nas outras.

5.1.1 Educação Física: os exercícios físicos exigem concentração de energia e contribuem para dar essas qualidades de resistência, de força, de sangue-frio, de coragem, de ousadia, que são as outras tantas manifestações da Vontade.
5.1.2 Educação Intelectual: o ato de vontade exige clareza e presteza no pensamento, e a ação será sempre tanto mais energicamente perseguida quanto melhor tenha sido preparada por uma reta razão e um juízo seguro. As convicções intelectuais profundas produzem normalmente as vontades fortes. Na origem de tudo que se faz de grande e de belo aqui na terra, há sempre poderosas paixões intelectuais.

5.2 Direta: o papel do educador aqui é esforçar-se para não incorrer em dois erros, o de ceder aos caprichos daquele a quem procura dar uma formação e o de reclamar uma obediência passiva.

5.2.1 Capricho: não passa de um impulso instintivo ao qual a criança não sabe, ou não quer opor-se. Cedendo sempre a suas fantasias, ensina-se-lhe a deixar-se dominar por eles, em lugar de ensinar a dominá-las. O capricho, em todas as idades é sinal de uma vontade frágil. Um homem enérgico controla sua impulsividade natural, sob pena de ser um joguete do determinismo interior das imagens.
5.2.2 Obediência passiva: A vontade é essencialmente uma atividade racional, e não se quer, verdadeiramente, senão aquilo que se conhece ou se compreende bem. É necessário aprender a obedecer, não tanto aquele que manda, quanto às razões de que é intérprete. É conveniente dedicar-se a compreender os motivos das ordens recebidas, desenvolvendo a atividade inteligente e pessoal. Desta forma se obedece, mas não passivamente, e sim às razòes agora compreendidas e aceitas - esta é a única obediência aceitável.

6. HÁBITO DA VONTADE

A Vontade pode, pelo exercício, adquirir facilidade e vigor. Para isso, pode ser útil impor-se a si mesmo atos ou tarefas difíceis. O exercício tonifica a vontade.


FONTE: JOLIVET, R. Curso de Filosofia. 16ª ed. Rio de Janeiro, Agir, 1986, p.206-212.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Diálogo - Parte 3: uma visão da teoria da comunicação

1. O homem, na comunicação, utiliza-se de sinais devidamente organizados, emitindo-os a uma outra pessoa. A palavra falada, a palavra escrita, os desenhos, os sinais de trânsito são alguns exemplos de comunicação, em que alguém transmite uma mensagem a outra pessoa. Há, então, um emissor e um receptor da mensagem. A mensagem é emitida a partir de diversos códigos de comunicação (palavras, gestos, desenhos, sinais de trânsito...). Qualquer mensagem precisa de um meio transmissor, o qual chamamos de canal de comunicação e refere-se a um contexto, a uma situação.

São, então, os seguintes elementos da comunicação:

Emissor: o que emite a mensagem;

Receptor: o que recebe a mensagem;

Mensagem: o conjunto de informações transmitidas;

Código: a combinação de signos utilizados na transmissão de uma mensagem. A comunicação só se concretizará, se o receptor souber decodificar a mensagem;

Canal de Comunicação: por onde a mensagem é transmitida: TV, rádio, jornal, revista, cordas vocais, ar...;

Contexto: a situação a que a mensagem se refere, também chamado de referente;

2. Na linguagem coloquial, ou seja, na linguagem do dia-a-dia, usamos as palavras conforme as situações que nos são apresentadas. Por exemplo, quando alguém diz a frase "Isso é um castelo de areia", pode estar atribuindo a ela sentido denotativo ou conotativo. Denotativamente, significa "construção feita na areia da praia em forma de castelo"; conotativamente, significa "ocorrência incerta, sem solidez".

Temos, portanto, o seguinte:

Denotação: É o uso do signo em seu sentido real.

Conotação: É o uso do signo em sentido figurado, simbólico.

3. Para que seja cumprida a função social da linguagem no processo de comunicação, há necessidade de que as palavras tenham um significado, ou seja, que cada palavra represente um conceito. Essa combinação de conceito e palavra é chamada de signo. O signo lingüístico une um elemento concreto, material, perceptível (um som ou letras impressas) chamado significante, a um elemento inteligível (o conceito) ou imagem mental, chamado significado. Por exemplo, a "abóbora" é o significante - sozinha ela nada representa; com os olhos, o nariz e a boca, ela passa a ter o significado do Dia das Bruxas, do Halloween.

Temos, portanto, o seguinte:

Signo = significante + significado.

Significante = som ou letras impressas

Significado = idéia ou conceito (inteligível)

4. Funções da Linguagem:

O emissor, ao transmitir uma mensagem, sempre tem um objetivo: informar algo, ou demonstrar seus sentimentos, ou convencer alguém a fazer algo, entre outros; conseqüentemente, a linguagem passa a ter uma função, que são as seguintes:

• Função Referencial
• Função Conativa
• Função Emotiva
• Função Metalingüística
• Função Fática
• Função Poética

Obs.: Em um mesmo contexto, duas ou mais funções podem ocorrer simultaneamente: uma poesia em que o autor discorra sobre o que ele sente ao escrever poesias tem as linguagens poética, emotiva e metalingüística ao mesmo tempo.


4.1 Função Referencial

Quando o objetivo do emissor é informar, ocorre a função referencial, também chamada de denotativa ou de informativa. São exemplos de função denotativa a linguagem jornalística e a científica.

Ex.: Numa cesta de vime temos um cacho de uvas, duas laranjas, dois limões, uma maçã verde, uma maçã vermelha e uma pêra.

O texto acima tem por objetivo informar o que contém a cesta, portanto sua função é referencial.


4. 2 Função Conativa

Ocorre a função conativa, ou apelativa, quando o emissor tenta convencer o receptor a praticar determinada ação. É comum o uso do verbo no Imperativo, como "Compre aqui e concorra a este lindo carro".

"Compre aqui..." é a tentativa do emissor de convencer o receptor a praticar a ação de comprar ali.


4. 3 Função Emotiva

Quando o emissor demonstra seus sentimentos ou emite suas opiniões ou sensações a respeito de algum assunto ou pessoa, acontece a função emotiva, também chamada de expressiva.

Ex.: Nós o amamos muito, Romário!!


4. 4 Função Metalingüística

É a utilização do código para falar dele mesmo: uma pessoa falando do ato de falar, outra escrevendo sobre o ato de escrever, palavras que explicam o significado de outra palavra.

Ex.: Escrevo porque gosto de escrever. Ao passar as idéias para o papel, sinto-me realizada...


4. 5 Função Fática

A função fática ocorre, quando o emissor testa o canal de comunicação, a fim de observar se está sendo entendido pelo receptor, ou seja, quando o emissor quebra a linearidade contida na comunicação. São perguntas como "não é mesmo?", "você está entendendo?", "cê tá ligado?", "ouviram?", ou frases como "alô!", "oi".

Ex.: Alô Houston! A missão foi cumprida, ok? Devo voltar à nave? Alguém me ouve? Alô!!


4. 6 Função Poética

É a linguagem das obras literárias, principalmente das poesias, em que as palavras são escolhidas e dispostas de maneira que se tornem singulares.
Ex.:

CLÍMAX
(Dílson Catarino)

No peito a mata
aperta o pranto
do olhar do louco
pra meia-lua.

O clímax da noite,
escorrendo orvalho como estrelas,
refletindo nas águas
da cachoeira gelada.

Cabeça caída, cabelos escorridos,
pêlos eriçados pela emoção nativista.
Segurem as florestas, mãos fortes,
decididas!

Ficar o vazio é não ter a noite
é não ter o clímax.
O clímax da vida!

DÍLSON CATARINO é professor de língua
portuguesa e poeta. Ele leciona em Londrina (PR).

http://www1.folha.uol.com.br/folha/fovest/teoria_comunicacao.shtml

Frase do dia! rs

Estava meio desatenta em frente a TV, quer dizer, na verdade atenta a muitas coisas ao mesmo tempo, coisa que só o cérebro feminino é capaz de fazer...rs, quando ouvi uma frase com teor sentencial, perfil hilário e pretensamente reflexiva...rs...na telinha cena do programa "A vida alheia", Alberta, a personagem que é editora chefe da revista diz:

"Se você quiser saber o que Deus acha do dinheiro, é só ver para quem ele dá"!

Claro que a frase está carregada de despeito, afinal quem não tem desfaz sempre de quem tem...e isso é freudiano...rs, mas a frase é boa, criativa, tragi-cômica, debochada, irônica, enfim...divertidinha. Para entendê-la é preciso lembrar daquela outra velha conhecida... "Deus dá nozes a quem não tem dentes"!

Diálogo - Parte 2 - Uma visão psicológica

1. “O diálogo está centrado na comunicação ou no compartilhar de emoções...Seu objetivo não é resolver problemas, trocar idéias, fazer escolhas, dar e receber conselhos, fazer planos ou raciocinar sobre qualquer coisa. Tudo isso pertence ao terreno da discussão. O diálogo efetivo é um pré-requisito absolutamente essencial para discussões produtivas”

2. A suposição implícita no diálogo é que todos os sentimentos são reações muito naturais resultantes de inúmeras influências presentes ao longo de toda uma vida. Tais sentimentos podem ser estimulados por outra pessoa, mas nunca causados por ela. Não há problema em sentirmos o que quer que seja. O único perigo real ocorre quando ignoramos, negamos ou nos recusamos a expressar nossos sentimentos.

3. O diálogo verdadeiro caracteriza-se por um sentido de colaboração e não de competição. Ele só acontece quando há uma simples troca de sentimentos sem qualquer tentativa de analisar, racionalizar ou atribuir responsabilidades por estes sentimentos.

4. As pessoas que tentam dialogar devem, antes de qualquer coisa, escutar seus próprios motivos e podem considerar três possibilidades: a) Ventilação é a necessidade de colocar “para fora” emoções que possam ter se acumulado dentro de nós. A necessidade ocasional de tal ventilação é compreensível, mas ninguém quer ser usado sempre como um depósito de lixo ou como uma toalha de enxugar lágrimas. b) Manipulação é um modo ardiloso de pressionar o outro a satisfazer minhas necessidades. Quem ama pergunta, apenas: “O que eu posso fazer por você? O que é que você precisa que eu seja?” Quem manipula pergunta: “O que é que você pode fazer por mim?”. C) Comunicação é compartilhar seu verdadeiro eu e isto acontece quando se compartilha sentimentos.

5. O diálogo requer um ato de determinação: vou confiar em você. Não posso ter certeza. Talvez você me desaponte. Mas eu vou arriscar, vou lhe revelar meus sentimentos mais profundos porque quero lhe oferecer o que tenho de mais precioso...

6. A força da comunicação está na habilidade que a pessoa tem de ser totalmente honesta e totalmente cordial ao mesmo tempo. É verdade que um dos princípios essenciais do diálogo é que as emoções devem ser relatadas no momento em que estão sendo experienciadas e para a pessoa para a qual são dirigidas, ainda assim, a cordialidade deve estar presente em qualquer forma de comunicação.

7. Há outra maneira comum pela qual os julgamentos aparecem e destroem o diálogo – é quando acredito que você causou minhas emoções. O julgamento representa a morte para o diálogo verdadeiro. Além disso, os julgamentos que somos tentados a fazer geralmente envolvem uma crítica indireta e destrutiva que é fatal para as atitudes de auto-aceitação, auto-estima e auto-celebração do outro. E quando essas atitudes desaparecem, o amor se perde.

8. A disposição para o diálogo consiste, em resumo, no seguinte: Quero que você me conheça. Entro no diálogo à procura de compreensão mútua, e não à procura de Vitória.

9. No diálogo, a pessoa que fala deve, antes de qualquer coisa, tentar sentir suas emoções o mais profundamente possível. Isso a leva a descrevê-las de uma forma tão acurada que, quem escuta se torna capaz de sintonizar essas emoções.

10. A comunicação total pode ser dividida em três partes: a) Uma descrição resumida das influências físicas e subjetivas que podem estar afetando o seu estado emocional. Ex. “Estou muito cansado...” b) Os acontecimentos específicos do dia que estimularam as emoções que vão ser reveladas. Ex. “Eu vi esse filme e...” c) As emoções propriamente ditas.

11. Escutar, no diálogo, é prestar mais atenção aos significados do que às palavras. É ouvir mais com o coração do que com a cabeça. O diálogo em si é mais uma viagem do coração do que da cabeça.

12. Podemos suprimir a comunicação do outro também de maneira verbal ou não-verbal, e provavelmente fazemos isto quando nos sentimos ameaçados pelo diálogo. Posso dizer alguma coisa irônica ou destrutiva, ou posso sabotar sua comunicação de modos sutis e não-verbais. Posso bocejar, olhar para o relógio, apertar os dentes, franzir os olhos, levantar as sobrancelhas, recostar-me na cadeira, mudar o volume ou o tom de minha voz. Estarei me comunicando através de “sinais codificados”, e você saberá que há algo errado.

13. A questão mais espinhosa sobre o diálogo refere-se às emoções negativas. O que faço quando me sinto hostil em relação a você?

14. A maioria dos rompimentos que minam o diálogo se origina no que chamei de um “espírito ferido” e este pode recuperar sua saúde quase milagrosamente, através de algo quase mágico, um pedido simples, mas sincero: “Me perdoa?”.

15. Quando o diálogo é interrompido, o amor morre e nascem o ressentimento e o ódio. Mas o diálogo pode ressuscitar um relacionamento morto. Na verdade, este é o milagre do diálogo.


POWELL, J. O segredo do amor eterno. 2ª ed. Belo Horizonte: Crescer, 1988, p.123-188.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Diálogo - Parte 1: Uma visão pedagógica

1. Diálogo é palavra. Palavra verdadeira é a interação de ação e reflexão, de maneira que sem ação é palavreria, verbalismo, blábláblá e sem reflexão é ativismo.

2. “Diálogo é palavra verdadeira, que é trabalho, que é práxis, é transformar o mundo, dizer a palavra não é privilégio de alguns homens, mas direito de todos os homens”.

3. Diálogo não é depositar idéias de um sujeito no outro; não é troca de idéias a serem consumidas pelos permutantes; não é discussão guerreira, polêmica, entre sujeitos que não aspiram a comprometer-se com a pronúncia do mundo, nem a buscar a verdade, mas a impor a sua.

4. A conquista implícita no diálogo é a do mundo pelos sujeitos dialógicos, não a de um pelo outro. Conquista do mundo para a libertação dos homens.

5. O diálogo só é possível se há profundo amor ao mundo e aos homens, porque é ato de coragem, de compromisso com sua libertação.

6. O diálogo só é possível se há humildade. Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim? Se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros “isto”, em quem não reconheço outros eu? Se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são “essa gente”, ou são “nativos inferiores”? Se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar? Se me fecho a contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela? Se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho? O diálogo é lugar de encontro, onde não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos: há homens que, em comunhão, buscam saber mais.

7. O diálogo só é possível se há uma intensa fé nos homens, no seu poder de fazer e de refazer, de criar e recriar, fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direito dos homens.

8. O diálogo fundado no Amor, na humildade e na fé nos homens se faz numa relação horizontal, em que a confiança é a conseqüência óbvia e implica o testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e concretas intenções, assim como a confiança deixa de existir se o sujeito fala em humanismo e nega os homens.

9. O diálogo só é possível se há esperança, o que leva o homem a uma eterna busca de justiça, de ser mais.

10. O diálogo só é possível se há um pensar crítico, que reconhece uma inquebrantável solidariedade entre mundo – homens, que concebe a realidade como processo, como um constante devenir.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ªed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987, p.77 a 83.