quarta-feira, 1 de junho de 2011

Saudade

Muitos escrevem sobre a saudade. Muitos escrevem sobre outras coisas e citam a saudade. Todos nós já sentimos saudade. O que há de incomum nisso?
A minha saudade é incomum. Porque a minha saudade é a minha saudade e a de mais ninguém.
A minha saudade tem o "objeto" particular dela, tem a intensidade, a extenção e a profundidade de uma história vivida, da minha história vivida.
Às vezes o personagem não me desperta saudade, só mesmo a situação vivida. É como se qualquer outro personagem pudesse ocupar o seu lugar e causar a mesma sensação.
E é disso que temos saudade muitas vezes, das situações, das sensações vividas com as pessoas. Nem sempre das pessoas.
Mas há pessoas de quem temos saudade sim.
Há pessoas de quem, eu, tenho saudade.
Mas geralmente é das pessoas com quais menos convivemos porque não tiveram tempo suficiente para nos decepcionar. E todas as pessoas nos decepcionam um dia e nós a elas.
Sim, estou com saudade de alguém com quem pouco convivi.
Isso é péssimo. Queria ter tido o tempo suficiente para uma grande decepção. Sim, porque tive alguma decepção, mas foi pequena, pouca, precisava ser maior e mais impactante para colocar no álbum dos que passaram, dos que se foram, dos que não deixo voltar.
Afinal, além de pessoas, do que exatamente tenho saudade?
Do olhar. Do cuidado. Do zelo. Do minimalismo dos gestos gentis. Do calor. Do que não é meu e nunca será porque é do outro e o outro complementa. Do que é, portanto, diferente. Do que é grande. Do que surpreende. Do que satisfaz. Do que me equilibra. Do que me absorve. Das sutilezas. De ser a sopa quente tomada estrategicamente pelas beiradas. Da profundidade. Da falsa segurança. Da luta simulada. Da vitória concedida. Da voz abrandada. Da trilha sonora. Do sabor acentuado. Da picância dosada. Da necessidade suprida. Do desejo atendido. De receber mais que um dever cumprido. De sonhos, viagens, ilusões. De tirar quatro pés do chão. Da maciez. Da força. Da gestão. Do ir e principalmente do vir. Do ser. Do estar. Do fazer. Do crer. Do merecer. Saudade do que é bom, belo e verdadeiro. Do que é eterno. Saudade de Deus. Saudade de Deus nos outros.
Se a vida fosse um balcão de negócios, eu saberia quanto e o que receberia. Mas a vida não é um balcão de trocas. O "toma lá" não quer dizer "dá cá". Então o que moverá a esperança? Só o "toma lá" mesmo. Saudade do dar. Saudade do dar algumas coisas a algumas pessoas especialmente. Saudade de encantar. Saudade de aquecer. Saudade de acolher. Saudade de transformar pedras em flores.
Saudade do que não tenho. Saudade do que já perdi.
E como se resolve a saudade?
Pondo num diário, trancando ela num texto. Sonhando novidades. Aproveitando o que se tem, o que se ganha.
Ah! Saudade. Fique aqui. Deixe-me leve. Deixe-me alegre. Deixe-me ou carregue-me...para o fim. Não seja sádica. Não seja inoportuna. Não seja inadequada. Não seja demasiada. Não seja fronteiriça.
Saudade! Vá! Deixe eu esquecida de que tudo passa. Mas... acabo de lembrar que você também passa.
E passa porque estou mais pertinho da plenitude, da festa da eternidade, da saciedade.
Até lá, quero sentir tudo que é gostoso de novo e por várias vezes.
Eita saudade que insiste.
Tudo bem, venha cá saudade! Vou abraçar você de vez.

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